Certa vez meu sono foi invadido por um canto. Um canto de passarinha bem bonito. Melodia da mata, que tocava junto do sopro do vento e das folhas das arvores. Já fazia quatro dias que estava lá, vivendo junto da floresta e da montanha, e até então nada havia me causado tamanha curiosidade e impressionismo. Levantei-me, fui até o lago, lavei o rosto e preparei-me para encontrar o dono de tal encanto. Lembro que não tive trabalho em encontrar a fonte da melodia, já que estava tão concentrado. Parecia um cachorro perdigueiro.  Depois de mais alguns passos, deparei com uma passarinha. Fiquei perplexo com o canto. Extasiado. Era de uma beleza tão sincera e infantil que meus pêlos do braço ficaram arrepiados, a mão tremulou, o peito arfou, a boca se enxeu de um gosto delicioso de caju. Não consegui conter um sussuro: Belíssimo. O canto cessou, e seu olhar encontrou com o meu. E eu reconheci aquele olhar de passarinha. E assim ficamos, por instantes, até que ela vôou e levou seu canto e seu encanto para outros cantos do mundo.

pico do Corcovado por Angélica Rodrigues

pico do Corcovado por Angélica Rodrigues