Sonho na chuva.

setembro 26, 2007

Para Roger, seu alce Albert e Samanta.

 

 

Sonho na chuva

 

 

A chuva caia silenciosa e fria lá fora. Era noite de setembro. Sentia frio e decidira buscar minha blusa de lã marrom e minha manta.

Estava cansado devido ao dia de trabalho e havia me sentado numa poltrona para escutar uma recente aquisição, um álbum de tango. A chuva caia cada vez mais forte, parecendo uma marcha que estranhamente estava no ritmo argentino.

Quase cochilava quando escutei palmas ao meu portão. – Quem poderia ser a essas horas? – pensei. Fui até a porta de casa e avistei-a ao portão, encharcada pela chuva e belíssima como uma Afrodite que acabara de sair do mar. Era de se esperar tamanha beleza, pois sempre fora bela.

Convidei-a para entrar, dizendo para ela se secar, antes que pegasse uma gripe ou pneumonia. Ela agradeceu o gesto, entrou até o quintal e esperou que eu retornasse com toalhas secas. Fui o caminho todo pensando nela ali e em como era linda, com seus cabelos loiros. Éramos amigos há alguns meses, trabalhamos juntos em alguns projetos e freqüentamos algumas festas juntos. Era sempre um doce, um doce desconcertante.

Quando retornei, entreguei a toalha a ela, que se secou. Sua aparência agora era a de uma Afrodite despenteada e arrepiada de frio. Sugeri então que ela entrasse para tomar um banho quente. Ela aceitou o convite e – sorrindo um sorriso que me fez sentir frio e molhado, e de súbito quente e aconchegado – entrou em casa, sem a necessidade de minha guia, já que havia conhecido a casa em outra ocasião.

Ela entrou no banho e decidi ir à cozinha, preparar um café para nós. Uma vez que a água ainda não fervia, fui ao quarto procurar por roupas secas. Tarefa difícil, já que eu morava sozinho e não havia nenhuma roupa feminina em casa. Optei por um antigo roupão verde desbotado que havia pertencido à minha mãe.

Estava voltando para a cozinha quando, no meio do caminho, encontro com ela saindo do banheiro enrolada na toalha que havia lhe dado. Estava belíssima, com um sorriso meigo que lembrava a uma Colombina carnavalesca, e os olhos completamente ingênuos e ao mesmo tempo sedutores. Após algum instante de estaticidade, ela soltou uma risada deliciosa que me despertou e, chamando-me de tolo, tomou o roupão verde que levava debaixo do braço. Após meu embaraçamento, ela entrou de volta no banheiro para se trocar, e eu voltei à cozinha, para terminar o café.

Quando ela voltou do banheiro e atravessou a porta da cozinha, me flagrei mais uma vez perplexo ao ver a bela loira de olhos azuis e roupão verde se tornando para mim uma magnífica bandeira brasileira, divinamente majestosa. Constrangi-me ao vê-la rindo por ter pensado estes últimos pensamentos alto demais. Escapei do constrangimento pela tangente e chamei-a para tomarmos um café na varanda.

Já havíamos tomado nossos respectivos cafés e conversado um bocado. Ela estava sentada no chão (no tapete, para ser mais específico), enquanto conversava e fazia carinhos em meu cachorro. Eu só sabia pensar nela ali, meio deitada, meio sentada, de forma esplêndida e graciosa. Seus cabelos nunca me pareceram tão dourados; sua boca nunca havia estado tão incandecentemente vermelha e sua pele tão brilhante. Até o velho e desbotado roupão verde havia tomado cor novamente. Estava completamente encantado por aquela musa, por toda aquela inspiração cintilante que estava deitada sob meus pés. Ela percebeu que eu a fitava, e olhou diretamente pra mim, me fitando também. Sua boca entreaberta mostrava seus dentes e um pouco da língua, e eu me sentia cada vez mais perdido, sem um cais. Seus olhos azuis foram de encontro aos meus castanhos, e estavam tão profundos que era impossível de se enxergar o fim. Estava hipnotizado por aquele imenso oceano azul. Sentia-me puxado, engolido. Navegava por aquele tão belo mar, sem medo algum, me aventurando nas profundezas daquele horizonte sem fim. E pelo resto da eternidade me perdi – feliz – naqueles olhos, e pude então compreender o que se sente quando ficamos perplexos olhando para o mar.

 

* * *

 

Acordei com os pássaros. A chuva parara e o toca disco estava tocando a última faixa do álbum de tangos. Demorei a compreender que aquilo havia sido um sonho. Levantei-me e caminhei até meu quarto. Minhas costas doíam por ter dormido na poltrona, e não na cama.

Ao entrar no quarto ela acordou e perguntou o que eu havia feito. Contei-lhe o ocorrido e me deitei ao seu lado. Desejei boa noite e disse: Sonhei com você. Ela beijou meu ombro, e voltou a dormir.

 

Rafael Furtado Camargo

25.09.2007